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A Metamorfose da Alma

há 11 minutos
6 min de leitura

A Metamorfose da Alma | Conto sobre a observação de aves

A Metamorfose da Alma é um conto sobre as diversas mudanças que ocorrem na percepção, e consciência, de quem começa a observar as aves. Entre, a modificação da paisagem, a maneira de perceber as estações do ano e um olhar apurado aos detalhes de uma família de passarinhos, é possível se dar conta do quanto que o espaço e o tempo ganham novos significados nesses encontro com a biodiversidade. Portanto, aproveite esta história como se estivesse navegando em um sinuoso e calmo rio, para ser capaz de notar as transformações que ocorrem gradativamente, desde as primeiras impressões até nas ações do eu lírico.


A Metamorfose da Alma

Era começo de verão, quando as chuvas aconteciam com intensidade e insistência, a ponto de cobrir parte da Mantiqueira por dias, restando apenas os tons de cinza e azul cedidos gentilmente pelas nuvens.


Paisagem de serras da Mantiqueira em Paraísopolis vista de área urbana em Cachoeira de Minas
Paisagem para a cordilheira de Serras de Paraísopolis-MG, uma das ramificações da Serra Mantiqueira.

O capim braquiária espichou – o que garantia trabalho aos jardineiros e serviço aos donos de lote em todas as pequenas cidades da região.


Estava na hora de roçar, ainda mais quando era preciso manter um lote "limpo". Mas nem toda roçadeira ligava ao mesmo tempo; alguns lugares escapavam por semanas até que a lâmina chegasse – e nesses lugares, o mato crescia.


Não dava outra para que uma colônia de passarinhos: pardos, cinzas, amarelos, pretos, brancos e monocromáticos tomassem conta desses espaços. Assim, aos poucos uma cantoria predominava, e um novo som da paisagem era incorporado no cruzamento do bairro.

Bando de pintassilgos (Spinus magellanicus) entre vegetação verde e pequenas flores silvestres cor-de-rosa e brancas.
Colônia de Pintassilgos (Spinus magellanicus) se alimentando em um conjunto de gramíneas

Enquanto alguns se penduravam nos talos de gramíneas carregadas por sementes, outros subiam até o ponto mais alto – e ali cantavam.


De longe, podia-se ouvir um canto melancólico; de longe o canto clamava por atenção, e esta atenção chegava. Aterrissaram as pardinhas, que, encantadas pela melodia, enfrentavam quaisquer ameaças. O importante era conhecer o dono da voz, aquele da pequena linha branca, que cantava, e tão bem cantava.


Quanto mais alto o passarinho preto e branco cantava, mais pardinhas chegavam.


Pequeno pássaro pardo, sendo uma fêmea do gênero Sporophila, em um graveto seco

Afinal, depois de uma longa viagem, era merecido o descanso nos lugares em que havia alimento, junto às condições certas para que as pequenas tigelas de fibras pudessem ser tecidas.


Mesmo a quarteirões de distância, as pequenas pardinhas saíam lá do pasto,

a margem da cidade e atravessavam entre as pedras empilhadas de tantos

andares, fios e troncos impenetráveis de concreto, até encontrarem o autor da voz.

Este, que por cantar tanto e tão bem, estava sempre cercado. Afinal, quem ali não

queria ter sua prole com aquele que, dono da pequena bochecha branca, tinha

tamanha voz?


Bendito bigodinho, bendito por sua voz – escolhera com quem queria reproduzir-se.

Isso fez com que as pequenas tramas começassem a ser feitas. E as fibras, que já

estavam ali mesmo, eram selecionadas; próximo a uma cerca com pontas cortantes,

uma caliandra das flores rosas tinha a estrutura perfeita para a pardinha escolhida

tecer a casa que acolheria seus filhotes. E ela começou a tecer, de dentro pra fora;

do corpo, no corpo, e para seu pequeno corpo – assim a casa ganhou sua forma.


Apesar dos perigosos gatos, essa pequena casa era segura entre as grades

com pontas cortantes, acobertada pelas densas ramas de folhas verdes e flores

rosas. Ali estava a casa, em segurança para que uma próxima geração de amigos

das sementes pudessem nascer.


Grade de proteção domiciliar com pontas de lança a frente de algumas moitas de caliandra.
Abrigo em que estava o ninho da próxima geração dos amigos das sementes.

No entanto, o pequeno macho, dono daquela imensa voz, não parou de cantar. Até porque ele tinha que manter seu território, afastar de sua pardinha com os ovinhos qualquer ameaça que pudesse representar real perigo à futura geração.


E, com toda aquela melodia, o bigodinho afastou de sua família qualquer ameaça à segurança dos seus descendentes. No entanto, atraiu para si os olhos – não de predadores, mas sim – de certos comerciantes que passavam por ali e admiravam toda aquela canção.


Então, amaldiçoado por sua melodia, bigodinho foi capturado por quem o via como fonte de capital, para servir de campainha na varanda.


A pardinha esperançosa pelo canto que lhe trazia segurança, deu-se conta da ausência da melodia. Dias se passaram e aquela cantoria responsável por transmitir confiança não retornaria.


Mas apesar das tempestades que viriam, as grades junto de suas pontas afiadas, somadas a toda a cobertura proporcionada pela calliandra, garantiram a proteção da ninhada até os primeiros voos: dois futuros cantores e uma pardinha, futura botadora de ovos.


Pequeno pássaro marrom (Sporophila,lineola) pousado em folhas de capim verde, em meio à vegetação densa e desfocada.
Sporophila lineola, fêmea. Pertence ao grupo de pássaros conhecidos por papa-capim.

A pardinha mãe, no entanto, sabia que o desafio de alimentar e ensinar três filhotes seria grande demais sem a presença daquele que, com sua voz, ajudou a delimitar o território e a afastar demais riscos da família. Só que, para sua sorte, um lote “sujo” de muitas espécies de capim estava bem em frente à pequena tigela que abrigava as três crias. E, nos primeiros dias, lá ia ela com suas crianças.


Terreno baldio coberto de diversos tipos de capins, cheio de sementes e diante de uma casa com moitas de Calliandra brevipes, e árvores ao fundo.
Lote que durante o período de Setembro a Março é o refeitório (e recurso urbano) de diversas espécies que se alimentam de sementes.

O risco estava em atravessar a rua, pois por ali desciam grandes blocos sobre rodas. Outro

risco eram os gatos que, não se sabia o porquê, viviam aos montes por perto – dentro de caixas de pedra.


Poucos eram os jardins que tinham algum alimento pelas redondezas.


Com a mesma coragem que a fizera atravessar o continente, ela ajudava os três filhotes a atravessar a rua.


Claro que, apesar dos perigos, aquele lote cheio de comida era a garantia de que não havia tanto assim com o que se preocupar. Até que, numa bela manhã, um som lhe chamou a atenção; não era o pai bigodinho que tanta falta fazia em seu coração.


Ela estava com a vigilância dividida entre um filhote em cada canto – estes que, já ousados, conseguiam atravessar a rua com seu voo todo atrapalhado de uma só vez.


Então, um grande primata sem pelos surgiu de roupão e, com seu instrumento fedido, poluente e barulhento, “limpou” aquele lugar.


Pessoa com roçadeira corta grama em jardim ensolarado, com luvas vermelhas, calça marrom e ervas verdes ao redor.

A partir daquele momento, a comida naquele quadrado em meio à cidade faltaria. Mas tudo que importava no instante do desastre era onde os três pequenos estavam; e, apesar de ela ter voado alto para os fios, não os encontrara.


Olhava para um lado e chamava, para outro também, e nada. Um deles ficou tão apavorado pela violência e velocidade com que perdera todo o ambiente em que passou seus primeiros dias, que, num só instante voou para o ninho em que nasceu, e lá, encolheu. Foi o lugar mais seguro que instintivamente pensou em se esconder.


A filhote que ficou presa entre os capins e não conseguia alçar voo foi poupado pelo grande primata. Ele, que notara a pequena, e que não sabia bem o que destruía enquanto cumpria com seu contrato – assegurou-se de preservar a moitinha que ela estava. Queria que nenhum mal acontecesse ao pequeno pássaro que o homem, de relance, admirou; e assim, pelo acaso, a pardinha foi poupada.


Já o terceiro bigodinho não teve a mesma sorte. Ele voou bem, e voou forte. Mas ninguém esperava que, na direção do poleiro para onde ia, do nada, ele se chocasse contra algo invisível.

Uma parede de vidro que impetuosamente cercava um pequeno jardim. Ele não resistiu e, subitamente, sucumbiu.


A mamãe pardinha se deu conta de que a filha piava bem alto numa moita, a mesma que os gatos agora fitavam. Acontece que toda uma passarinhada ali estava, inclusive uma valente família de Pitangus que, de forma implacável convocava o bando sempre que qualquer felino ousava se aproximar de onde não devia.


Bandos de Tyrannidae uniram-se; os pássaros, apesar de pequenos, ajudaram-se e desafios muito maiores, em grupo, superaram.

Colagem de aves pousadas em fios, postes e telhas, com plumagem cinza, amarela e preta, sob céu claro. Todas são espécies da família Tyrannidae. Da esquerda à direita: bem-te-vi (Pitangus sulfuratus), suiriri-cavaleiro (Machetornis rixosa), suiriri (Tyrannus melancholicus), tesourinha (Tyrannus savana).
Da esquerda à direita: bem-te-vi (Pitangus sulfuratus), suiriri-cavaleiro (Machetornis rixosa), suiriri (Tyrannus melancholicus), tesourinha (Tyrannus savana)


A pardinha mamãe resgatou sua filhote de volta para o ninho, onde encontrou seu outro bebê.

Estrada de paralelepípedos entre área urbana e área rural, com postes e árvores e campos naturais; no município de Cachoeira de Minas-MG
Três quarteirões acima do lote em que se passa a maior parte deste conto, é o limite do perímetro urbano para a zona rural, em Cachoeira de Minas-MG.

Ainda naquela tarde, com toda a coragem, ajudou-os a migrar para algumas ruas acima de casa, onde ainda havia muito capim para os três se alimentarem. O mato do lote à frente do ninho demorou alguns dias para crescer.


E logo notei que, passado um tempo lá estavam alguns Sporophila lineola: duas pardinhas e um macho todo manchado, ganhando as cores para, em seu posto, ser

coroado.


Desde cedo ele passou a cantar. Macho esbelto, de canto bonito, atiçava os ouvidos de pessoas que gostariam de ter um brinde servindo de campainha na casa. Mas, dentro de si, ele sabia que havia de ficar esperto; não se sabia o porquê, mas é bom manter-se afastado. De alguma forma, ele garantiu seu amadurecimento e pôde iniciar sua jornada de migração: foi para longe.


Espero que, no próximo verão, possa ouvir novamente esse bigodinho cantar. Até lá, manterei minha calliandra bem cuidada, para que uma próxima prole ela possa abrigar. E, claro, o cimento por aqui decidi que vou quebrar, para que tenha capim e comida quando alguém vier roçar o lote da frente.


Até a próxima, bigodinho; o seu espaço, melhor e mais seguro, vou deixar. Nem tudo posso resolver, mas espero que, com este conto, as pessoas possam se comover, e assim, uma comunidade se envolva em criar um lugar melhor para você, e para que cada futuro filhote possa, com saúde, crescer.


Pássaro preto e branco pousado num talo de capim verde, em meio à vegetação desfocada; espécie de Sporophila lineola do gênero macho.
Sporophila lineola, macho, popularmente chamado de bigodinho.

 
 
 

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